“RECOMENDAÇÕES IMPOSSÍVEIS”

Às vezes penso que existem recomendações bíblicas que parecem impossíveis de serem praticadas, posto que os contextos a nossa volta quase sempre são desfavoráveis. Paulo, escrevendo aos Filipenses, apresenta-nos algumas dessas “recomendações impossíveis”. Observem o texto do apóstolo:

Alegrai-vos sempre no Senhor; outra vez digo: alegrai-vos. Seja a vossa moderação conhecida de todos os homens. Perto está o Senhor. Não andeis ansiosos de coisa alguma; em tudo, porém, sejam conhecidas, diante de Deus, as vossas petições, pela oração e pela súplica, com ações de graças. E a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará o vosso coração e a vossa mente em Cristo Jesus (Fl. 4: 4-7)

Entendo que alegria não é algo fácil nos nossos dias, mas alegria sempre parece simplesmente algo incompatível com nossa realidade, posto que vivemos num mundo competitivo e de valores efêmeros. Nossa alegria há muito que está atrelada a momentos favoráveis, nos quais as coisas vão acontecendo do jeito que desejávamos, entretanto não era essa a realidade dos Filipenses, pois Paulo os ensina que os sofrimentos também fazem parte da vocação: ”Porque vos foi concedida a graça de padecerdes por Cristo e não somente de crerdes nele” (Fl.1: 29). Sofrimento tal, que o apóstolo compara com os que ele mesmo estava vivenciando em suas cadeias em Roma: ”Pois tendes o mesmo combate que vistes em mim e, ainda agora, ouvis que é o meu” (Fl. 1: 30). Como estar alegre em meio aos sofrimentos? E mais, como permanecer sempre alegre? Não parece impossível? Todavia, devemos lembrar-nos das palavras do Senhor: “Isto é impossível aos homens, mas para Deus tudo é possível” (Mt. 19: 26). O segredo de nos alegrarmos sempre, independente de circunstâncias externas, está na fonte do nosso regozijo e, assim, Paulo completa: “Alegrai-vos sempre no Senhor, visto que Ele (Jesus) é a fonte de alegria e contentamento. Isso implica em devoção, comunhão, apego ao mestre e aos seus princípios e valores. As palavras exortativas de Paulo aos efésios concordam com essa recomendação: “Sede fortalecidos no Senhor e na força do seu poder” (Ef. 6: 10). Erramos quando tentamos nos revitalizar em outras fontes, nossa alegria não está nas coisas, mas na pessoa de Jesus Cristo, não está naquilo que conquistamos, mas naquilo para o qual fomos conquistados (Fl. 3: 12). É na sombra do Onipotente que devemos descansar (Sl. 91), tal como fez Davi (Sl. 57), e ali encontrarmos alegria e alívio na alma (Mt. 11: 28-30).

Mas o apóstolo continua a sua exortação aos Filipenses e diz: “Seja a vossa moderação conhecida de todos os homens”. Aqui estamos diante de outro “impossível”: Deixar o nosso testemunho por onde passarmos e, mesmo em meio a tantas lutas e sofrimentos, prosseguir demonstrando nossa amabilidade e temperança, como aqueles que, por onde passam, vão exalando o bom perfume de Cristo, seguros de que NELE somos conduzidos sempre em triunfo (2 Co. 2: 14).                                                                                                                            

 

 Mais uma vez o segredo não está na nossa força ou na nossa capacidade de impressionar as pessoas, mas na confiança de que, como completa o apóstolo, perto está o Senhor”. A proximidade do Senhor é a grande esperança escatológica, na qual repousa a nossa certeza de que NELE o nosso trabalho não é vão (1 Co. 15: 58), mas é também a segurança de que sua presença nos ampara e encoraja, estando conosco até a consumação do século (Mt. 28: 20), jamais nos deixando sós. Sim, podemos fazer conhecido o nosso amor e a nossa moderação diante de todos que estão a nossa volta, porque o Senhor está perto.

A outra exortação do texto nos deixa impressionados. Como podemos não andar ansiosos, vivendo na geração da ansiedade? E mais ainda, não estarmos ansiosos por nada, como Paulo diz: “Não andeis ansiosos de coisa alguma”? Qual de nós nunca esteve ansioso? Como bloquear a ansiedade? Nesse caso, a questão é mais complexa, pois requer um entendimento mais aprofundado dos verdadeiros valores da vida. Jesus nos ensinou que o bloqueio à ansiedade está na compreensão do reino de Deus (MT. seis: 25-33). Isto mesmo, buscar e entender o reino de Deus é mais importante do que o cuidado por nossas necessidades básicas, ademais, o apóstolo instrui seus leitores para que fechem as portas para ansiedade, por meio da oração e súplica com ações de graça. Que tremendo! O Senhor sabe das nossas necessidades, mas, mesmo assim, devemos colocá-las diante Dele em oração, mas, ao mesmo tempo, demonstrando nossa gratidão, pois Ele tem cuidado de nós. Nossas ansiedades não são vencidas pelas conquistas, mas pela confiança que temos naquele que nos supre, segundo a sua graça (Fl. 4: 19).

De fato essas recomendações são impossíveis, mas somente para aqueles que não conhecem o caminho do coração de Deus e dos princípios do seu reino. Para nós, o que fomos cortados pelo seu amor e revelados da sua graça, há recompensas indizíveis, quando preservamos nossa alegria no Senhor, demonstramos nossa amabilidade, mesmo em meio aos sofrimentos e fechamos as portas da ansiedade, utilizando-nos da oração e comunhão íntima com o Senhor. A maior dessas recompensas é a dádiva da paz, uma serenidade interior capaz de proteger nossa mente e o nosso coração, guardando-os em Cristo Jesus.

Assim, amados meus, devemos cuidar do que pensamos e prosseguir crendo o que parece impossível é sempre uma possibilidade para aqueles que conhecem uma nova maneira de viver. Que o seu Espírito nos conduza a toda verdade!

    PR. AFRANIO DE ANDRADE É PEDAGOGO, PROFESSOR E FUNDADOR DO MGV